Recensão crítica.
"Os tempos livres dependem da globalidade das condições sociais." É com este pensamento que somos introduzidos no tema dos tempos livres, uma equação escrita onde Theodor W. Adorno , um filósofo/ sociólogo/ musicólogo/ pianista/ compositor alemão, confronta os nossos tempos livres com as barreiras sociais.
Penso que será importante realçar o facto de este ensaio sobre os tempos livres ser escrito em 1969, antes do boom da internet, e arrisco dizer, talvez mesmo antes do verdadeiro fenómeno Televisão! Entretanto, o telemóvel, o mp3, o mpeg4, o jpg, o wmv, o wireless, as homestations, gps, gprs, bluetooth, youtube, blogosfera, myspace, hi5, msn e e-mail, a imprensa cor-de-rosa, a implementação de todo um estilo de vida "fashion" e a liberalização de actos ridículos por parte de políticos... Uma panóplia de condições sociais "oferecidas" ao ser humano através do seu próprio desenvolvimento.
É exactamente este tipo de "controladores" a que, já na década 60/70, Adorno se referia. Este controlo de um sistema que, criado em prol da produção e logo, do "trabalho", do ser humano, se transforma lentamente num sistema de controlo, condução e produção de seres humanos, um controlo em massa.
E o que controlam, no fundo, estas condições sociais? Segundo o autor, tudo.
Todo o ser social tem a sua função, o seu trabalho! Porque afinal todos temos de trabalhar, produzir, ganhar, e pagar contas. Do mesmo modo, todo o ser social é livre de "usufruir" do tempo livre. "A designação (de tempos livres) é de origem aliás muito recente - antes dizia-se ócio".
Estes tempos livres são-nos assim impostos, não como algo que nos é supostamente inato, mas como uma maisvalia do nosso tempo de produção. O trabalho!
"Trabalho: do b. Lat. tripaliu, aparelho de três paus para sujeitar os cavalos que não se deixam ferrar;
s. m., acto ou efeito de trabalhar; conjunto das actividades humanas, manuais ou intelectuais, que visam a produtividade; esforço humano aplicado à produção de riqueza; cuidado ou esmero em qualquer serviço; ofício; ocupação; acção de um maquinismo; ... "
Ao encontrarmos a relação Tempos livres / Tempo de produção, a pergunta é: "... que será feito dos tempos livres em conjuntura de crescimento da produtividade do trabalho, mas em condições persistentes de não-liberdade, isto é, condições de produção em que as pessoas nascem e que, ontem como hoje, lhes ditam as regras da sua existência?"* Mais uma equação escrita que nos permite aprofundar a questão.
É visível que aqui Adorno recorre ao pensamento burguês como, eu diria, impulsionador de uma série de factos sociais.
É durante todos os controlos ao nosso tempo de produção que surge o comércio dos nossos tempos de "não produção" - e já aqui temos que ter algum cuidado, não produção?!?
Exige-se que haja uma enorme atenção e profissionalismo durante o trabalho, e espera-se que os tempos livres reponham a energia para o trabalho. "Damos aqui de frente com um esquema de comportamento do carácter burguês". Aqui ataca a Indústria dos Tempos Livres com uma enorme e variada gama de actividades, consumismos e organizações de ... .
"É esta a razão do cretinismo de muitas ocupações dos tempos livres." Até que ponto estas sugestões do comércio para os tempos livres são realmente livres, se nos são constantemente impingidas, publicitadas aqui e ali, exigidas como necessidade pessoal e/ou social? O caso do hobby. "Esta submissão pode ser verificada na ideologia do hobby. No mesmo tom óbvio com que se pergunta a alguém qual o seu hobby, ecoa o pressuposto de que é obrigatório ter um..." E se, pergunto, o trabalho e o hobby forem produzir Arte, Música, comida, dormir ao relento, pensar, criar bibelots, teorizar ou qualquer outra futilidade concebida com os seres humanos? "... transformas-te imediatamente num escravo do trabalho ou num ser antiquado...", ou procuro uma qualquer empresa que garante ter a melhor solução para os meus tempos livres! Posso então comprar quadros já marcados para colorir ou ainda comprar mensalmente uma colecção produzida e seleccionada especialmente para o meu leque de colecções mensais. Quem sabe posso optar por mais um qualquer jogo de computador... Tudo menos a satisfação mental de produzir algo concreto e de interesse pura e exclusivamente pessoal, ou de âmbito colectivo privado. Amador.
"Exemplo acabado é o comportamento daqueles indivíduos que se deitam a fritar ao sol, só por causa do bronzeado, (...) . A ideia de que uma rapariga possa ser eroticamente mais apelativa, graças à sua pele bronzeada, é, concerteza, só mais uma racionalização."
A necessidade social de estar na moda!
Estar na moda, hoje em dia, significa mais do que simplesmente vestir um corte contemporâneo, ou um modelo clássico. Para estar na moda, hoje, é necessário todo um aparato: a última montra da minha loja preferida; o último single dos mais bem parecidos da indústria discográfica; a embalagem de chiclets mais sedutora do mercado; ou mesmo que muito desconfortável/ridículo o último corte de cabelo daquele cabeleireiro que todos gostam.
Torna-se assim inevitável que reagindo apenas a estímulos externos, a realização pessoal do ser atinja o tédio! Um produto da institucionalização do tempo da produção. Adequando o sistema à oferta existente de tempo de produção pessoal livre em vez de adequar o tempo (do) pessoal ao sistema de produção, menos tédio teremos de suportar.
"O conceito de Indústria Cultural, cunhado por Theodor W. Adorno (1903-1969) na década de 1950, permanece essencial para a compreensão das características e contradições fundamentais da moderna sociedade capitalista."
Como prevê T. Adorno nestes ensaios, a verdadeira liberdade de escolha dos nossos tempos livres está a caminho da extinção. O autor confirma um dos muitos paradoxos com que se depara nos seus pensamentos. No fundo, o ser, procura, vê e defende a sua liberdade pessoal, mas também nos prova o pensamento de Adorno e o mundo de hoje, que essa mesma liberdade pessoal cede à força exercida pelas pressões sociais. Hoje, mais do que nunca, este fenómeno é global. Hoje, mais do que nunca, nos roubam de forma suja uma identidade pessoal. Hoje, mais do que nunca, as famosas massas têm que reagir!
Gostaria de fazer uma apreciação ao autor, ao qual ganhei uma enorme admiração, a incrível visão e clareza de pensamento que teve ao escrever os ensaios sobre a Indústria Cultural.